
Quando a médica acupunturista Maria
do Rosário Guimarães ganhou duas mudas de
nim, as pesquisas brasileiras em torno
desta árvore indiana ainda eram
incipientes. Um engenheiro florestal havia
lhe informado que a planta serviria de
excelente inseticida natural para sua
horta, localizada num sítio em Aquiraiz, a
30 quilômetros de Fortaleza, CE. Dois anos
e meio depois, ela percebeu que a alface,
a beterraba, a cenoura e outros vegetais
que cultivava não eram atacados por
pragas. As pesquisas evoluíram de lá para
cá e hoje sabe-se que o nim pode ser mais
que um poderoso inseticida. É capaz de
alterar a metamorfose, reduzir a
fecundidade e inibir a alimentação de 413
espécies de insetos. A produção de Maria
do Rosário cresceu para 300 árvores em
Aquiraiz, e, junto com a sócia Elisabete
de Freitas, ela fabrica produtos à base de
nim, como xampus e cremes hidratantes.
Percebendo a fácil adaptação ao clima e o
sucesso com a clientela, investiram numa
plantação em Jaguaribe, a 300 quilômetros
de Fortaleza, em pleno sertão cearense, de
mais de 12 mil árvores.
Como na história de sucesso das sócias, a
produção de nim cresce em alta velocidade
graças às suas inúmeras aplicações
ambientais e comerciais. Cosméticos e
produtos de higiene, como pastas de dente,
são feitos à base de nim. A indústria
farmacêutica a utiliza na produção de
remédios contra piolhos e escabiose e
xarope contra bronquite. Por ser um
excelente antiviral, está sendo testado
até em coquetéis contra o vírus da Aids. A
Índia produz 600 tipos de medicamentos
feitos com a árvore.
Mercado
Da
mesma família do mogno, o nim é ideal para
a fabricação de móveis finos e artesanato.
Como é rica em tanino, a planta é
resistente aos ataques de cupim e de
traça. Segundo o pesquisador Belmiro
Neves, da Embrapa Arroz e Feijão, o metro
cúbico da madeira é cotado a 400 dólares.
Um bom manejo resulta em 40 metros cúbicos
de madeira por hectare. As folhas são
usadas na ração animal, como vermífugo, o
quilo da folha chega a ser vendido a 2
reais. Trituradas, servem também como um
bom repelente para o gado. Além disso
tudo, graças à propriedade inseticida, o
nim tornou-se uma promessa para a
agricultura auto-sustentável, por ser uma
alternativa menos agressiva no controle de
pragas. "A árvore vai ajudar a evitar um
possível 'apagão florestal'", aposta
Belmiro, referindo-se ao avanço do
desflorestamento para a abertura de
lavouras.
Um quilo dá cerca de 3.500 mudas.
Descrição
A planta gosta de
altas temperaturas e chega a 11 metros de
altura.
NOME
CIENTÍFICO: Azadirachta indica A.
Juss. Este nome significa "árvore
generosa da Índia". Além do nome
científico, o nim é conhecido também como
Neem, na Austrália e nos Estados Unidos, e
como Babo Yaro, na Nigéria.
CLASSIFICAÇÃO: O nim pertence à
família das meliáceas, a mesma do mogno,
da andiroba, do cedro e do cinamomo.
DISTRIBUIÇÃO: A árvore é originária
da Índia e da Birmânia. Por ser
característica de clima tropical, ocorre
em toda América Central, Sul do Pacífico,
Mianmar, Paquistão, Sri Lanka, Indonésia,
Papua Nova Guiné e Malásia. No Brasil,
segundo a pesquisadora da Embrapa Recursos
Genéticos e Biotecnologia, Terezinha Dias,
a primeira introdução oficial da planta
ocorreu em 1984, por intermédio de um
experimento em Brasília. O material,
procedente da Índia, foi encaminhado ao
Iapar - Instituto Agronômico do Paraná, em
Londrina. Atualmente, a árvore pode ser
encontrada em todas as regiões do país,
com destaque para o município de
Barreiras, no oeste da Bahia.
DETALHES IMPORTANTES: O nim não
exige solos de alta fertilidade,
desenvolvendo-se bem até em terrenos
áridos. Não suporta, porém, terra
encharcada e ácida. A árvore gosta de
temperaturas que variam entre 8ºC e 40ºC.
Quanto mais quente, mais rápido é seu
crescimento. Também se desenvolve em
regiões com poucas chuvas e solos
profundos, tolerando índices
pluviométricos que variam entre 150 e 1800
milímetros anuais. O ideal é sempre fazer
o plantio das mudas no início do período
chuvoso. Nestas condições, o nim pode
chegar a 11 metros de altura em oito anos.
Os frutos começam a aparecer em apenas
três anos. Possuem 2 centímetros de
comprimento, são esverdeados e doces, o
que atrai muitos pássaros. A polpa é
utilizada na produção de metano. A
produção por árvore pode chegar a 15
quilos de frutos. A semente é um pouco
menor que o fruto e lembra bem uma semente
de azeitona, só que um pouco maior. As
folhas são pequenas, com 8 centímetros de
comprimento, e as flores são brancas e
aromáticas. Uma árvore produz 7 toneladas
de folhas, que podem ser vendidas a 2
reais o quilo.
Fontes: Terezinha Dias, curadora de
plantas biocidas da Embrapa Recursos
Genéticos e Biotecnologia, Brasília, DF;
Belmiro Pereira das Neves, entomologista e
pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão,
Santo Antônio de Goiás, GO
Outros usos potenciais do Nim (
Azadirachta indica A. Juss )
Uso Medicinal
Frutos,
sementes, óleo, folhas, cascas do caule e
raízes do nim possuem os mais variados
usos antissépticos, antimicrobianos, nos
distúrbios urinários, diarréias e doenças
do couro cabeludo. As folhas, por exemplo,
são usadas contra erupções cutâneas (da
pele) e abcessos e o suco da folha é
utilizado no combate aos vermes
intestinais.O óleo e seus isolados inibem
o desenvolvimento de fungos sobre homens e
animais. A ação antimalárica é atribuída
ao princípio ativo "gedunine": tabletes e
injeções contendo em suas formulações
extratos de nim são usados no tratamento
da malária crônica.
Como fertilizante orgânico
A pasta resultante da prensagem das
sementes de nim vem se mostrando um adubo
orgânico promissor, desde que misturado a
outras fontes mais solúveis de nitrogênio.
Essa ressalva é válida porque, sendo
antimicrobial, a torta de nim reduz a
população de bactérias nitrificadoras (que
captam o nitrogênio do ar e o
disponibilizam para a planta): apenas
cerca de 56% do nitrogênio livre é
processado pelos microorganismos do solo,
após a colocação da pasta de nim. Por
retardar o processo que disponibiliza o
nitrogênio no solo, o uso da pasta de nim
está sendo recomendado para ser misturada
com fontes de nitrogênio altamente
solúveis, como os fertilizantes sintéticos
utilizados na agricultura convencional,
diminuindo as perdas de nitrogênio pelo ar
ou pelo escorrimento juntamente com as
águas no interior ou na superfície dos
solos. Entretanto, o uso desse material na
agricultura orgânica, que se vale de
adubos orgânicos pouco solúveis não é
recomendado, visto que o mesmo retarda o
processo de disponibilização de nitrogênio
que já ocorre de forma equilibrada e numa
velocidade menor que em sistemas
convencionais.
Produção de Biomassa para a propriedade.
Após a maturação, as árvores de nim rendem
de 10 a 40 toneladas de matéria seca por
hectare, dependendo das chuvas e das
condições locais, como espaçamento e
expressão do material genético. As folhas
abrangem cerca de metade da biomassa
produzida, enquanto frutos e madeira cerca
de 25% cada. A madeira do nim é dura,
relativamente pesada e utilizada na
confecção de carretas, ferramentas e
implementos agrícolas. Por ser durável e
resistente é utilizada na fabricação de
postes para cerca, casas e móveis; além de
ser excelente fonte de lenha e
combustível, possuindo um carvão de alto
poder calorífico.
Espécie para reflorestamentos e sistemas
agroflorestais.
Na Índia e na África, o nim é uma espécie
silvícola valiosa e está se tornando
popular na América Central. Por ser uma
árvore robusta, é ideal para programas de
reflorestamento e para recuperação de
áreas degradadas, áridas ou costeiras. Em
sistemas agroflorestais, o nim é usado
como quebra-ventos. Protegendo as culturas
da ação dos ventos e do ressecamento, o
nim colabora para o incremento da
produtividade das lavouras, além do
fornecimento constante de matéria orgânica
(via folhas que caem no solo) e da reserva
de madeira para o futuro. Contudo,
pesquisadores alertam que estudos devem
prosseguir para se verificar com quais
culturas o nim pode ou não ser plantado
conjuntamente, devido ao fenômeno da
alelopatia (incompatibilidade entre
espécies devido a substâncias expelidas
pelas raízes ou folhas).
Fonte: "Cultivo e Utilização
do Nim Indiano (Azadirachta indica A. Juss
)"; Belmiro P. Neves & João Carlos M.
Nogueira. Goiânia: Embrapa – CNPAF; 1996.